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Paulo Winicius Teixeira de Paula (Foto: Divulgação)
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Chegando ao fim o ano de 2017 chega a hora do torcedor fazer um balanço. De pé a torcida apoia as ações que tanto cobrava, e que vêm sendo empreendidas, como a reforma do Estádio Antônio Accioly, o investimento maior nas categorias de base do clube e se regozija por ter ultrapassado o Goiás no Ranking da CBF, o Atlético é hoje o maior clube do Centro Oeste, estando entre os 20 maiores do Brasil. Porém, infelizmente, quando o atleticano se lembrar de 2017 terá mais o que lamentar do que comemorar. O ano que marcou os 80 anos do surgimento do Dragão Campineiro foi também o de campanhas pífias nos campeonatos que disputou, somou-se a isso o total descaso com a história do time, uma política de Marketing e Comunicação praticamente nula, e um clube cada vez mais fechado, hostil e distante de seu torcedor.

No que diz respeito ao desempenho dentro das quatro linhas, registrou-se uma vergonhosa atuação no Campeonato Goiano, um 4º lugar atrás de clubes com orçamento bem menor, como Aparecidense (Série D) e Vila Nova. Foram apenas 6 vitórias em 16 jogos disputados. Tudo isso no ano em que o Atlético era o único time goiano na série A. Para piorar, ainda figuram nessa campanha 4 derrotas em clássicos, três para o Goiás e uma para o Vila Nova. Chegamos então à terrível marca de três anos seguidos sem alcançar uma final do Campeonato Goiano.

Na Copa do Brasil vimos um time esforçado em campo, mas que acabou eliminado pelo Flamengo.

No Campeonato Brasileiro o Dragão segurou a lanterna do começo ao fim, em 19 jogos em Goiânia só alcançou 4 vitórias, nenhuma contra um dos grandes clubes do futebol brasileiro. Para o atleticano era um verdadeiro suplício acompanhar uma equipe tão fraca nos jogos do Serra Dourada ou do Olímpico, as chances de sair dali com alguma vitória eram mínimas.  Na contabilidade geral, o Rubro-Negro Goiano finalizou sua participação na série A com apenas 9 vitórias.  Na cabeça do torcedor pairavam as lembranças de quando o Dragão jogou Série A batendo de frente com os grandes clubes do Brasil, em 2010 e 2011, e fazendo dos jogos em Goiânia uma grande arma. De 56 jogos realizados na temporada de 2017, o atleticano só teve aquela alegria verdadeira em três ocasiões: nas vitórias contra o Vila Nova no Serra Dourada, pelo Campeonato Goiano, e contra Corinthians e Botafogo fora de casa, pelo Brasileiro. De resto, foram 53 jogos de derrotas, empates ou daquelas poucas vitórias contra times sem relevância para o torcedor, quando não se tem aquela gostosa motivação para “zoar” o adversário. O balanço final foi: 56 jogos, 26 derrotas, 15 empates e 15 vitórias.

Se dentro de campo a amargura do atleticano parecia não ter fim, fora de campo as coisas eram ainda mais graves. A relação entre clube e torcida foi das piores possíveis.

Tudo começou ainda no final de 2016 quando a Diretoria se negou a celebrar com a torcida o título da série B. Enquanto centenas de atleticanos esperavam na porta do Estádio Antônio Accioly a simples passagem de um jogador, da taça, dos diretores do clube... A celebração se dava em uma churrascaria, para poucos, bem longe do torcedor. Essa mesma torcida atleticana que foi fundamental na arrancada final do time na série B, na hora de comemorar parece que já não era mais tão importante para a Diretoria. A lembrança desse episódio fica ainda mais triste quando vemos tudo que o América Mineiro e o Paraná Clube fizeram em 2017 para suas torcidas, comemorando o acesso para a série A.

Já marcado por esse lamentável ocorrido, mas ainda com esperanças, o torcedor iniciou o ano seguinte esperando a implementação do Programa de Sócio Torcedor, que teria tudo para dar certo, tendo em vista o clima de empolgação com o acesso e o fato dos adversários locais amargarem mais um ano de série B. Porém, nada se viu, mais uma vez se perdeu uma grande oportunidade de aproximar o torcedor do clube e de crescer a torcida em um momento ímpar como aquele.

Pouco depois surge a tentativa de vender o mando de campo do jogo da Copa do Brasil, contra o Flamengo, para fora de Goiás. Justamente em um jogo decisivo, que poderia levar o Dragão para as quartas-de-final da competição. Naquela que era a hora de chamar a torcida para comparecer no Serra Dourada, para ela dar o show que já havia feito em outras oportunidades, como em 2010 contra o Palmeiras, pela mesma competição... A Diretoria tenta tirar o time de perto do torcedor. Mas por sorte da torcida tal iniciativa foi barrada pela própria CBF, o que não apaga mais esse descaso marcado no coração do atleticano.

E assim corriam as coisas, justo em 2017, quando o torcedor imaginava um ano glorioso, que iria sair com a camisa do clube, peito estufado, exuberante como “o único clube goiano na série A”, a realidade foi bem diferente, foi submetido a todo tipo de humilhação, não só em campo, mas também nas arquibancadas. Muitas vezes a torcida organizada do Atlético teve que ceder seu lugar para a torcida adversária no Estádio Olímpico, no tradicional local onde desde a Série B ficava posicionada, no meio de campo, de frente as câmeras de TV. Ao invés dos torcedores visitantes serem colocados atrás do gol, tomavam o lugar privilegiado da nossa torcida organizada. Resultado: Muitas vezes a torcida do Atlético mesmo sendo maioria parecia ser minoria para quem via o jogo pela TV, prejuízo sem tamanho para a imagem do clube. E as humilhações não param aí. Contra o Palmeiras no Estádio Olímpico a Diretoria não diferenciou os ingressos no momento da venda. O Atlético, clube mandante que só tem a obrigação de disponibilizar 10% dos ingressos para o visitante, fez sua própria torcida não encontrar ingressos para comprar, palmeirenses e cambistas compraram ingressos que deveriam estar reservados para a torcida atleticana. O atleticano ficou apertado e oprimido dentro do seu estádio, não teve seu local reservado garantido, sua segurança foi ameaçada e vários torcedores foram embora após tumulto e gás de pimenta ser jogado em idosos, mulheres e crianças. Fica o registro da louvável ação da torcida organizada do Atlético que ajudou a conter os palmeirenses que invadiam o lado atleticano, graças a eles se impediu uma tragédia maior.

Mas por incrível que pareça o ponto alto do desrespeito com o torcedor atleticano ainda estava por vir, foi no jogo contra o São Paulo, em que pela primeira vez em sua história o Atlético como mandante cedeu toda a arquibancada coberta, inclusive a parte Norte, para a torcida adversária. Coube aos atleticanos a vergonhosa posição de ficar atrás do gol. Mesmo em jogos onde sabíamos que seríamos minoria nunca havia sido cedida a parte reservada ao mandante, vide algumas finais do Campeonato Goiano e demais edições do Campeonato Brasileiro. E o mais interessante, o público total do jogo foi de 17.697 presentes, ou seja, se o Atlético tivesse dividido o estádio ao meio, como sempre fez, caberia tranquilamente a torcida do São Paulo, em maior número, na parte do estádio reservada a ela, visto que a capacidade do Serra Dourada é de 40.000 pessoas.

E as desilusões não pararam por aí, uma das maiores foi com as celebrações dos 80 anos do clube. Um total descaso com nossa linda história, sequer mencionaram também os 10 anos do titulo goiano de 2007, que pôs fim aos 18 anos sem títulos estaduais. 

 O Atlético não fez uma homenagem sequer a ex-jogadores, ex-dirigentes, torcedores históricos e fatos memoráveis de sua trajetória.

Se não fossem alguns meio de comunicação, como o jornal O Popular, que lançou matérias especiais com ex-jogadores, o Site Futebol de Goyaz e seu programa na Rádio 730, que fez um programa especial no aniversário do clube lembrando antigas conquistas, e a ação de uma associação de torcedores, a ACAD- Associação Antonio Accioly que fez uma festa em Campinas com homenagens a antigos jogadores, torcedores e dirigentes, produziu um vídeo com momentos marcantes da história do Atlético e fez uma camiseta com referência ao aniversário do clube... Não fosse isso, a celebração dos 80 anos da história do Atlético passaria em branco. A única ação do clube foi uma festa com ingressos a 180 reais, que mais parecia um evento da fornecedora de material esportivo, uma festa só para vender camisa, com um preço inacessível à maioria dos torcedores, e que não contou sequer com uma homenagem aos heróis que construíram os 80 anos de glórias do Dragão.

Durante o Campeonato Brasileiro ainda tivemos que ver, em um único jogo, um atleta sem nenhuma identidade com o Atlético, Walter, aparentemente por conta própria, usar uma camisa 80. Agora nos perguntamos, por que não um jogador, ídolo do título conquistado em 2016, como o goiano Jorginho ou o menino criado na base, Luis Fernando, jogarem o campeonato todo com uma camisa nº 80? O que custaria uma ação tão simples, mas tão impactante como essa?

Somam-se a tudo isso as recorrentes declarações de dirigentes contra a torcida do Atlético. A torcida no seu justo direito de reclamar da péssima campanha no Campeonato Brasileiro, do desmonte da base campeã na Série B e da montagem de 3 times em um só ano, teve como resposta a declaração do dirigente atleticano de que torcida do Atlético era “uma piada” (Fonte: Portal 730, 04/07/2017). Já no fim do ano, ao afirmarem que o Atlético enfim iria lançar o programa de Sócio Torcedor em 2018, disseram que o programa seria implementado “... para que o torcedor não tenha mais nenhuma desculpa para não ajudar o clube” (Fonte: Jornal O Popular, 15/12/2017).

A impressão que tais declarações nos dão é de que a Diretoria não gosta do torcedor, que prefeririam estar a frente de um clube de empresários, sem torcida, como o BOA, um Red Bull, um Grêmio Inhumense. Do contrário, o que explica essa necessidade em atacar o próprio torcedor do clube onde trabalha? Não foram esses mesmos torcedores que deram a maior média de público entre os clubes goianos na Serie B de 2016?  Os mesmo que lotaram todos os jogos no Estádio Olímpico na campanha do título?  Não são os que mantêm há vários anos o Atlético entre os maiores apostadores na Time Mania, a frente inclusive da tão falada torcida do Vila Nova ?

Fica a pergunta aos nossos dirigentes: Qual o sentido de um clube senão a sua torcida? Ao invés de tomar o torcedor como adversário, não é melhor essa Diretoria fazer uma autocrítica de como o Atlético deixou de aproveitar essa superexposição na série A para valorizar sua marca e crescer a torcida ? Que dificuldade é essa de se mirar nos grandes clubes e se aproximar do torcedor?  Por que a insistência em atacar a autoestima do torcedor o tempo todo? Já não basta parte da crônica esportiva verde e vermelha fazer isso?

A impressão que temos é que o Marketing e a Comunicação do Atlético estão regredindo. Há 10 anos, em 2007, com orçamento bem menor, o clube fez uma Camisa Retrô especial de Comemoração de seus 70 anos, fez uma Revista relembrando suas façanhas, reunia e homenageava ex-jogadores, estava aberto para venda de títulos de sócio proprietários e comemorava títulos com a torcida, vide as festas/shows de 2008 e 2009 no Accioly. Na década de 80 o clube comemorava títulos com festa na Avenida 24 de outubro e no Estádio Antônio Accioly.

Por que em 1957, em 1987 e em 2007, com muito menos recursos, as Diretorias do clube fizeram uma revista celebrando o aniversário do clube? Uma revista que poderia ser custeada por qualquer um dos patrocinadores ou mesmo ser paga com o dinheiro da sua venda. No ano do maior orçamento da história do clube não se dispuseram a reservar uma parte mínima para valorizar e divulgar os 80 anos de sua história. Com certeza o gasto seria menor do que o que foi gasto com salários e rescisões de jogadores como Abuda, Jeferson Nem e Everton Heleno. Afinal esses jogadores passam, o registro de nossa história fica.

Nossos dirigentes precisam entender que o Atlético é um time de origem popular e que para crescer sua torcida tem que ser com ações voltadas para o “povão”. Não vai ser com comemoração de título em Churrascaria, festa em boate, troféu fechado em sala de diretor, festa com ingresso a 180 reais que se vai atingir o povo, aumentar a torcida.

O Atlético precisa se espelhar nos grandes clubes, que têm sala de troféus, confeccionam camisas comemorativas, celebram seus ídolos, fazem as novas gerações reconhecerem as glórias do passado. Coisas simples, mas indispensáveis.

Se o Atlético chegou onde está hoje é por conta da história, torcida e patrimônio que conquistou nesses 80 anos. Se fosse fácil ser campeão, se dependesse única e exclusivamente das mãos de um ou outro, alguém já teria levado um Grêmio Inhumense, Grêmio Anápolis, um Aparecidense para a Série A. As novas gerações tem o direito de conhecer de quem foram as mãos e pés que nos fizeram chegar até aqui. Saber das histórias de Dona Maria Leila, que foi rainha nas festas juninas do clube, do papel da torcida feminina à época, histórias do Bar do Fiori, do Euripinho Roupeiro, Divino Porteiro, Dona Eva que lavava a roupa dos atletas, de Seu Ataide, Zuíno, Horieste Gomes, José Mendonça Teles, Respeita as Cores e sua Charanga, Barretão, Betos Bar, Pai Véi, Profeta , Divinão e tantos outros. Gente simples, mas sem as quais o Atlético não existiria.

É preciso relembrar o papel das primeiras torcidas organizadas do Atlético, nos anos 80, com Leonardo Bariani, a Máfia Atleticana, e sua posterior reorganização nos anos de 2005 e 2006, dando origem a tantas outras torcidas que a sucederam até chegar à fundação da gloriosa e atual TODA - Torcida Dragões Atleticanos.

Sequer conseguimos imaginar uma festa que pretendesse celebrar os 80 anos do Atlético sem reconhecer o papel daqueles que lutaram para não venderem o Estádio Antônio Accioly: Zenha, Omar do Carmo, Ivo, Álvaro Mello... Sem mencionar e procurar Pedro Bala, a família do saudoso Luizinho, Paguetti, Jair Porrete, Aldo, Lôro, Lindomar, Lino, Juninho... Depois como o clube pode cobrar gratidão de algum jogador?

Hoje o Atlético tem um grupo de torcedores que se dedicam a colecionar camisas antigas do Dragão, tendo já feito inclusive vários encontros e mostras. Por que o clube não mobiliza, chama esses torcedores, para dar visibilidade aos seus 80 anos? Só mais uma das ações de custo zero que foram ignoradas em 2017.

Por fim o torcedor já cansado mais uma vez se pergunta: “Até quando o Atlético terá que suportar cronistas como Juca Kfouri vociferar mentiras em rede nacional? Afirmando que o Atlético é time de empresários, de políticos, de verão, time sem torcida e sem história? Será que a diretoria não entende que para valorizar a marca do clube é indispensável deixar claro aos quatro cantos desse Brasil que o Atlético é o clube mais tradicional de Goiás? O pioneiro. O primeiro campeão, um clube campeão em todas as décadas desde que foi fundado?”. Com a palavra nossa Diretoria.

Porém, sob inspiração de Euclides da Cunha, posso dizer que todo atleticano é um forte, quem suportou toda sorte de ataques e tentativas de destruição de seu patrimônio, jejuns de títulos e más gestões e ainda se faz presente, não pode desistir. Apesar de tudo que passamos em 2017, o torcedor olha para 2018 esperançoso com o fato de poder voltar a assistir jogos no Estádio Antônio Accioly, com o investimento maior nas categorias de base e com o aceno para a efetivação do Programa de Sócio Torcedor. Esperamos que isso venha acompanhado com a abertura do clube, que voltem a vender títulos de sócio proprietário, algo que há alguns anos está bloqueado ao torcedor. Que venha com a exposição de seus troféus ao torcedor, reconstrução do busto de Antônio Accioly e a retomada de sua política de comunicação e marketing.

2018 se inicia com a firme convicção dos atleticanos de que as humilhações às quais a torcida foi submetida em 2017 não podem se repetir, o Atlético precisa aprender com seus erros, se reaproximar da torcida, porque quando o clube do povo joga em sua casa, em Campinas, e tem o torcedor ao seu lado, ninguém segura a Locomotiva Rubro-Negra, que venha 2018!!! Viva o Dragão Campineiro, tradição e glória do futebol goiano!!!

Paulo Winicius Teixeira de Paula é historiador e professor do Curso de História do IFG e mestre em História pela UFG. Sócio-Proprietário do Atlético Clube Goianiense. 

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