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João Cândido Portinari em entrevista exclusiva ao diretor de jornalismo da 730, Petras de Souza (Foto: Jordanna Ágatha/Portal 730)
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Os microfones da Rádio 730 fizeram ecoar nesta quarta-feira (4) a voz do filho único de um dos maiores artistas plásticos da história. O fundador e diretor-geral do Projeto Portinari, João Cândido Portinari, concedeu entrevista exclusiva ao diretor de jornalismo da emissora, Petras de Souza.

João esteve novamente em Goiânia no final do mês de setembro, após 8 oito anos, para ministrar a palestra do Cafezal à Organização das Nações Unidas (ONU), que faz parte do projeto Vitrine do Conhecimento do Shopping Flamboyant.

Antes mesmo do evento, ele recebeu a nossa equipe e iniciou a entrevista contando quem foi o homem que saiu do povoado de Brodowski, no interior de São Paulo, para se tornar um dos mais famosos artistas que o Brasil teve em todos os tempos. “A grande característica de Portinari é a sua compaixão pelo ser humano”.

O filho relembra uma frase do pai dita há 70 anos e que o Portal 730 preferiu deixar para o final desta reportagem. João Cândido prosseguiu. “Quais são as coisas comovedoras do mundo de hoje? Não são, por acaso, as guerras, a violência, as tragédias provocadas pela fome e pelas injustiças? Isso define tanto o homem quanto o pintor Portinari”, reflete.

Não obstante, os pincéis de Portinari, desde a década de 50, já retratavam na obra “Guerra e Paz” uma realidade que perdura até a contemporaneidade.

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O projeto do filho

Nascido em 1939, João Cândido Portinari conta que não seguiu o mesmo caminho do pai, o da arte, mas sim o da matemática. Quando completou 40 anos, entre aulas, administrações e outras atividades acadêmicas, criou o Projeto Portinari, mas percebeu que conciliar tudo seria impossível. Ele contextualiza a época em que o projeto surgiu.

“Em 1979 foi o ano das Diretas Já. A ditadura ainda continuaria, mas foi o ano do surgimento dos movimentos populares, para resgatar a história do Brasil, a democracia. Mais de 15 anos após a morte de um dos maiores artistas que o Brasil produziu, a sua memória estava se perdendo diariamente”, relata.

Segundo João Cândido, a história das obras do pai precisava ser urgentemente resgatada. “Não havia catálogo, nem museu. Os livros que tratavam sobre a vida dele estavam esgotados. Eu tive uma experiência muito triste que foi quando eu estava para iniciar o projeto, e fui aos Estados Unidos e verifiquei que o museu de arte moderna de Nova York tinha mais informações sobre Portinari do que todas as instituições brasileiras que eu tinha visitado. Aquilo me chocou muito. Foi um divisor de água na minha vida”, constata.

Caça às obras

Ao longo de 25 anos de “trabalhos de formiga”, como ele mesmo relata, João Cândido conseguiu elaborar um catálogo completo das obras do pai, representados em cinco volumes, mais de cinco mil páginas e ilustrações coloridas das obras de Portinari, cruzadas com cerca de 30 mil documentos que o projeto não deixou se perder ao longo da história.

“Levantamos cartas, recortes de periódicos, fotografias de época. Fizemos um programa de história oral semelhante ao do CPDOC (da era Getúlio Vargas), que nos ensinou a como fazer história oral. Entrevistamos 74 contemporâneos de Portinari, sejam parentes, amigos, figuras ilustres como Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Luís Carlos Prestes. São 130 horas gravadas. Percorremos as três Américas, Europa, países do oriente próximo como Israel. Encontramos obras na Finlândia, África do Sul, Canadá, Tchecoslováquia, Haiti. Isso pressupunha uma visita física de uma pesquisadora com um fotógrafo ao proprietário daquela obra ou daquele documento”, revela.

Infância

A grandiosidade do pai não saltava aos olhos do filho. João Cândido conta, com saudosismo e certa vergonha, que levava uma infância de diversão, longe do sucesso e da influência de Portinari, e que mal reconhecia o artista que morava debaixo do mesmo teto.

“Morava em frente à praia, gostava de pegar ondas, jogar futebol de areia e namorar. Dava mais importância Às pessoas na rua do que as que frequentavam a minha casa. Cheguei a perguntar um dia para minha mãe se meu pai realmente trabalhava, pois eu só o via pintando. Um dia, voltando para casa, entrei pela cozinha, para não chamar a atenção e vi um homem tocando o meu violão. Falei para minha mãe que ele iria desafiná-lo, e ela me disse que aquele homem era Villa Lobos”, conta aos risos.

Pus

No cenário político e econômico atual no Brasil, com crises financeiras e investiagações e desdobramentos em busca de corrupção, João Cândido analisou a realidade do Rio de Janeiro e do País. 

“Um sentimento de muita tristeza, de profunda impotência, de constatar os efeitos de uma tragédia anunciada há muitos anos. Isso é fruto de desmandos, de irresponsabilidade, de canalhice dos dirigentes desse país há muitos anos. Não é novidade nenhuma. O que está acontecendo agora é a erupção de um pus que estava dentro do nosso país. Não sou dono da verdade, mas uma das coisas que me ocorre é a falta de prioridade dada à Educação. Se tivesse essa prioridade, teríamos outra qualidade de homens públicos”, comenta.

A página do projeto possui interatividade total e até uma linha do tempo
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A um clique do projeto

A obra de Portinari, eternizada pelo projeto do filho João Cândido, pode ser conferida e admirada no site www.portinari.org.br, uma página totalmente interativa e com fácil acesso aos trabalhos de um dos maiores artistas brasileiros.

Cabe aqui retomar a memória de João ao falar de uma frase pronunciada pelo pai em uma conferência realizada em Buenos Aires no ano de 1947, na qual o artista falava para intelectuais e artistas argentinos, e que, segundo o filho, retrata a pessoa e o artista que foi, é e sempre será Cândido Portinari.

“Uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Somente o coração poderá nos tornar melhores, e esta é a grande função da arte. As coisas comovedoras ferem o artista de morte e sua única salvação é retransmitir a mensagem que recebe”.

Ouça a entrevista na íntegra

Imagens: Jordanna Ágatha/Portal 730

 

 

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