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Ao mesmo tempo que contava os minutos para o fim do expediente fazia minha lista de compras na cabeça. Não podia esquecer nada! Morar sozinha não é fácil e a parte do supermercado é uma das mais importantes. Enquanto fazia a listagem combinava de encontrar com uma amiga lá no supermercado. Praticidade é tudo, então comprar e colocar os papos em dia ao mesmo tempo é vida!

Já estava em frente a máquina de bater ponto esperando os segundos finais, quando um colega de trabalho se aproximou e me presenteou com uma caixa de bombons. O “mimo” era reconhecimento por um resultado positivo de um trabalho feito em equipe. Fiquei feliz, não só pelo agradecimento, mas por serem meus chocolates favoritos. Estava tentada em abrir ali e já comer uns três, mas mesmo com água na boca resolvi guardar a caixa na bolsa para saboreá-los mais tarde. Agradeci a gentileza, bati o ponto e fui encontrá-la no supermercado.

Pega uma coisa daqui, conversa um pouco dali. Pronto! Carrinho cheio e assuntos atualizados, hora de passar tudo no caixa e seguir a programação da noite. Passadas as compras, me dirijo ao caixa eletrônico sacar mais dinheiro para pagar o táxi de volta. Já na porta do supermercado sinto uma mão puxando meu braço e uma voz em alto tom:

- Você não vai pagar a caixa de bombons que está dentro da sua bolsa? – gritou o fiscal.

- Que caixa? – respondi confusa.

- Essa de chocolates que está dentro da sua bolsa. – insistiu.

- Ah sim! Mas essa caixa foi um presente que ganhei de um colega de trabalho. Não faz parte das compras.

- Então, onde está o cupom fiscal? – persistiu o funcionário.

- Moço, foi um presente, eu não tenho o cupom fiscal. – respondi já nervosa com aquela situação.

-Nós vimos você roubando, temos provas! – acusou.

- Onde estão suas provas ? – contestei com firmeza.

- Não toleramos ladras aqui, mocinha! Vou lá dentro verificar o código da caixa de bombons, se passar na nossa máquina é porque você roubou. Fique aqui com o segurança!  – gritou novamente.

Ainda tentei retrucar, mas o fiscal me ignorou, virou as costas e saiu com a caixa. Eu já estava trêmula de tanto constrangimento na porta de um supermercado. Nesse momento todo mundo que entrava ou saía do local já me olhava julgando. Liguei para meu colega que me presenteou com os bombons, pedi a ele o cupom fiscal. Por telefone disse que iria procurar, mas não podia garantir que encontraria. O fiscal voltou.

- Moça o código passou. Você roubou a caixa! – afirmou com todas as letras.

- Cadê o gerente? Quero falar com ele. – indaguei sem acreditar que estava passando por isso.

- Não tem gerente aqui. – respondeu com deboche.

- Vou chamar a polícia, então!

- Pode chamar, porque nós já acionamos também.

Em menos de três minutos a viatura estava lá. Explicamos a situação e o policial pediu pra chamar alguém da gerência. Quase uma hora depois o gerente pediu para entrar só o policial. Enquanto isso, eu continuava na porta do supermercado, com um segurança ao meu lado, a viatura e minha amiga tentando me consolar por esse mal entendido.

Sem nenhum acordo feito entre a polícia e a gerência seguimos todos para a delegacia. O fiscal foi na viatura e eu no carro do namorado da minha amiga escoltada pela polícia. Ao chegar lá, o fiscal foi ouvido primeiro. Em seguida me chamaram. O próprio delegado me contou que o funcionário explicou que as câmeras do supermercado não estavam funcionando, que ele não viu o roubo, apenas a caixa de bombons dentro da minha bolsa e, por isso, seguiu os procedimentos da empresa.

Contei minha versão, além disso o meu colega também foi parar na delegacia para explicar sua parte. Era mais de meia noite quando saí de lá. Arrasada, injustiçada e desacreditando em tudo que fui obrigada a passar. Fiz o boletim de ocorrência e processei o fiscal e o supermercado, por injúria e difamação.

Na audiência de conciliação, o fiscal jogou toda a culpa nas normas do supermercado. Fizemos acordo e isso foi bom para o meu processo contra o estabelecimento. Já na audiência de conciliação com o supermercado – que não tinha provas - me ofereceram 2500 reais. Não aceitei e seguimos para audiência de instrução. Ofereceram-me novamente 2500 reais. Não aceitei. Partiu para o julgamento. Pedi 30 mil que é o máximo para pequenas causas, mas que não devolve toda a vergonha que passei naquele dia. Com todas as provas possíveis que eu era inocente e que o fiscal e o supermercado cometeram um erro, ganhei a causa. Por indenização levei 15 mil reais o que dá mais ou menos 1875 caixas de bombons, que com certeza não irei comprar nesse supermercado!

O alarme toca às 5h30min da manhã. Com muita preguiça, desligo aquele barulho irritante e ativo a função “soneca”. Sem muita demora, aquele barulho irritante toca outra vez. Pulo da cama, tomo banho, escovo os dentes, escolho uma roupa qualquer, calço as sandálias e saio de casa. No meio das escadas, me lembro que não peguei as chaves, nem  tranquei a casa. Volto correndo, subindo as escadas de dois em dois degraus. Abro a porta, procuro as chaves. Tiro tudo de cima do sofá, reviro a cama, desordeno mais ainda o guarda-roupa, procuro no banheiro e finalmente lembro que elas estão no gancho de pendurar chaves.

Pego as sumidas, tranco a casa, desço as escadas correndo, caminho pela calçada e vejo o ônibus se aproximando. Corro em direção a ele e me jogo na frente daquela máquina enfurecida. O motorista freia bruscamente e sem paciência abre a porta. Ofegante, entro, agradeço a boa ação do motorista e passo na roleta. De longe avisto um único lugar vazio: o banco de gestantes. Com passos largos me aproximo do local. Olho para os lados. Não percebo nenhuma mulher com barriga aparentemente grande e que eventualmente poderia ser uma grávida. Sem peso na consciência, me sento e me aconchego. Segundos depois, pego no sono e quando acordo me deparo com inúmeras pessoas olhando pra mim com expressões de revolta, devido ao local que eu estava. Sem precisar de palavras, me levanto e tento ir para o fundão. Me esfrego - contra minha vontade - em quase todas as pessoas do ônibus.  Finalmente consigo chegar na parte detrás daquela máquina. Imaginei que a vida louca tinha acabado ali, mas não. Ao tentar me encaixar no centímetro quadrado que estava disponível, escuto duas senhoras se cumprimentando. -Oi Dona Divina quanto tempo! -Oi Dona Maria, é verdade né faz uns três meses que não nos vemos.

Não sou do tipo de pessoa que faço questão de escutar a conversa dos outros, mas existem alguns diálogos que são inevitáveis. Continuei na minha posição, olhando para a janela. E elas prosseguiram: -  E aí como está o seu irmão, ele se casou né? - Uai ficou sabendo não?

- Não! O que aconteceu?

- Ele morreu! - Morreu?

- Pois é infelizmente infartou quando o filho dele nasceu, foi tanta alegria que não aguentou. - Nossa, meus pêsames pelo seu irmão e meus parabéns pelo seu sobrinho! Mas e seu novo genro, está se dando bem com ele?

- Assim com meu genro...na verdade não.

-Não? Por quê?

-Porque ele morreu.

-Morreu?

-Pois é também morreu coitado. Ele estava voltando do serviço de moto com muita pressa para buscar minha filha na faculdade, aí furou o semáforo e um caminhão pegou ele em cheio.

-Meu Deus que horror! Naquele exato momento eu e metade do ônibus já olhávamos para aquela mulher muito assustados. Ela falava sem sentir nenhum mísero sentimento pelos seus parentes, nem desprezo, nem amor, muito menos dó. Eu não sabia o que me espantava mais, as trágicas histórias ou a omissão de sentimentos dela. Não era frieza, era a normalidade de como ela tratava a morte. Mas a conversa não terminou no genro: -Mas Dona Divina, vamos falar de coisa boa! Você me mandou o convite do seu casamento, que infelizmente eu não pude ir. Como foi matrimônio? E a lua de mel?

-Ê Dona Maria estou vendo que esses três meses afastadas não nos fizeram bem, a senhora está muito desatualizada. Não ficou sabendo do meu quase marido? -Quase marido? Não! O que foi dessa vez?

-Ah menina, um dia antes do casamento ele foi na roça pra matar a vaca que era o buffet da nossa festa e quando estava voltando para a cidade  a caminhonete que ele estava, desviou de uma paca na estrada e caiu num barranco, morte na certa!

-MEU DEUS DO CÉU, DONA DIVINA! Que zica é essa, que histórias são essas? Tem alguém vivo na sua família? Agora sim todos do ônibus focaram suas atenções no diálogo das duas senhoras. O meu espanto tinha se convertido em uma gargalhada interna. Não que eu seja insensível, mas eu nunca escutei uma pessoa contar histórias tão íntimas em público. Era incrível como todo mundo queria fazer um comentário, porém não tinha coragem. E assim continuamos a prestar atenção na conversa, agora sim era inevitável!

- A Dona Maria tem gente viva sim! Meus filhos, minha mãe de 108 anos e mais uns parentes por aí.

-Ah que bom né! E seus filhos o que pensam desses seus quase maridos?

-Na verdade eles nem se preocupam mais, porque este foi o sétimo que morreu.

Por fim, eu não consegui me conter, e falei:

-SÉTIMO? E a senhora ainda se chama Divina? Deus me livre! Se eu ficar mais um segundo nesse ônibus quem vai morrer sou eu. Não tem como ficar perto da Senhora! Motorista abre essa porta!

De repente um silêncio constrangedor. Ao mesmo tempo que todos queriam me aplaudir, queriam me matar, pois eu finalizei aquela conversa anormal. O ponto que descia ainda estava distante, mas não seria uma má ideia sair dali. E para quebrar o gelo, o ônibus fez “aquela” curva, que todo mundo sai do lugar e fecha os olhos implorando para sair ileso. Dois segundos depois de achar que tinha passado daquela pra uma melhor a porta do alívio abriu. Ufa. Não era o paraíso, mas tinha descido do pesadelo.

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