Como uma forma de celebração ao aniversário de 74 anos do Goiás Esporte Clube, decidi abrir o espaço do meu blog para a torcida esmeraldina demonstrar seu carinho com o maior clube da região Centro-Oeste. O esmeraldino João Paulo Tito escreveu um precioso texto contando a rica história da maior equipe da capital goiana. Confira!

Goiás Esporte Clube - Time de 1943
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“O Goiás Esporte Clube foi fundado no dia 06 de abril de 1943, em Goiânia. Obviamente, nem de longe se parecia com o time de hoje - em patrimônio, torcida ou títulos, isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é que até o nome deveria ser diferente: "Palestra". Lino Barsi, idealizador e um dos fundadores do clube, paulista de São Joaquim da Barra, descendente de italianos, seguindo seu amor pela Itália e a tendência já inaugurada por Palmeiras e Cruzeiro - times que também se chamavam "Palestra" lá pelos idos da década de 40 - queria trazer a tradição para o cerrado goiano. Entretanto, foi barrado por um decreto de Getúlio Vargas que proibia estrangeirismos italianos, alemães e japoneses na língua portuguesa - obviamente preocupado com a conjuntura internacional da Segunda Guerra Mundial. E assim, atendendo a um pedido direto de Pedro Ludovico Teixeira, interventor nomeado pelo governo federal, Barsi batizou nosso querido alviverde de "Goiaz F.B.C.", dando projeção nacional a nosso Estado. A vitrine de Goiás, diriam os rivais alguns anos depois, em tom de desdém, já que representavam apenas bairros da capital.

Mas a precariedade de um início de carreira está longe do que sequer possamos imaginar. Dificuldades aos montes. As décadas iniciais de 40 e 50 não foram muito profícuas, e o primeiro título estadual apareceu apenas em 1966, depois de muita luta para deixar o amadorismo para trás. As vitórias só começaram a virar rotina a partir da década de 70. Foram 4 títulos estaduais e a primeira participação num Campeonato Brasileiro, em 1973, no qual o clube terminou em 13º colocado, inclusive com um empate histórico em 4x4 contra o Santos de Pelé, num Pacaembu lotado. Nada mal.

Goiás Esporte Clube - Time de 1971
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Devagar e sempre, subindo um degrau de cada vez, o Goiás ascendeu no futebol e bateu seus principais rivais regionais, lançando grandes ídolos (Tão Segurado, Lincoln, Matinha, Paghetti, Zé Teodoro, Baltazar, Túlio, Luvanor, Sílvio Criciúma, Araújo, Josué, Aloisio, Fernandão, Alex Dias, Dimba, Dill, Paulo Baier, Harlei, e muitos outros) e consolidando-se entre os mais tradicionais do Brasil. Foi o único time goiano a participar de uma Libertadores da América, e já em 2004 estreou internacionalmente também na Copa Sulamericana, chegando à final da competição em 2010.

Em resumo: o Goiás Esporte Clube conquistou 2 Campeonatos Brasileiros - série B (1999 e 2012), 3 Copas Centro-Oeste (2000, 2001 e 2002), 26 Campeonatos Goianos (inclusive um pentacampeonato, entre 1996 e 2000), 1 Torneio Granada Cup (2015), dentre inúmeros outros quadrangulares estaduais e torneios isolados. 4 artilheiros oficialmente consagrados no Campeonato Brasileiro (1989 com Túlio, 2000 com Dill, 2003 com Dimba e 2006 com Souza). Melhor ataque do Brasil em 2012, e segunda maior invencibilidade da História em casa, atrás apenas de Atlético-MG. 18o no Ranking da CBF. 30o no da Conmebol e 107o no Mundo, pela IFFHS.

Goiás Esporte Clube - Time de 1994
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Eu não sabia de nada disso quando tinha 10 anos de idade. "O que eu faço com esses números?", diria Humberto Gessinger. No dia 04/11/1995, quando percorri os anéis internos do Serra Dourada, subindo a rampa em direção às cadeiras de mãos dadas com meu pai, eu não tinha a menor ideia do que iria encontrar. Assim que saí pelo túnel e dei de cara com aquela enorme massa verde e branca do outro lado, agitando bandeiras e emanando cânticos, quase a ponto de explodir, vi pela primeira vez, arrepiado, algo que eu nunca havia visto na vida. Aquilo era o futebol de verdade, em sua expressão mais humana e passional. Eu não tinha nem ideia de que aquilo existia quando comemorava meus gols lá na rua de casa, jogando golzinho de chinela Rider.

O jogo era Goiás e Corinthians, segundo turno do Campeonato Brasileiro de 1995, um campeonato do qual não havia assistido a nenhum jogo. Futebol pra mim, até então, era arrancar o toco do dedo numa disputa de bola no asfalto. Sim, reconheço, talvez eu tenha começado tarde nas arquibancadas. Era meu primeiro contato, de verdade, com o Goiás, e dentro de campo éramos nós contra eles, os paulistas. O Corinthians começou ganhando, Magrão errou pênalti, mas a virada de placar no final garantiu uma primeira experiência fora do comum. Teve briga no final do jogo, e pela janela traseira do carro deu tempo de ver a chuva de pedras combatidas pela cavalaria da PM com cassetetes e balas de borracha. Cara, futebol não era para qualquer um. Porque futebol não acontece só dentro de campo.

Tão Segurado - o primeiro ídolo do Goiás (o "Heroi dos 33")
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A trajetória do Goiás Esporte Clube já estava rolando há 52 anos quando eu fui me juntar a ela, lá do alto do anonimato da arquibancada, naqueles tímidos 10 anos de idade. Não adianta xingar sozinho lá de cima. Ali, só existe o coletivo, o "nós" (foi engraçadíssimo quando, num jogo Bragantino x Goiás, já em 2012, lá no estádio do sanduíche de calabresa do Luciano do Valle, em Bragança Paulista, o Felipe Amorim escutou a gente xingando ele da arquibancada - que tinha só uns 5 esmeraldinos - e pediu desculpas. Eu juro!).

Como todo torcedor, inexperiente no início, aos poucos fui percebendo que, apesar da trajetória vitoriosa do Goiás, existiam muitos percalços. Muitos. Sempre. O gosto é amargo, mas o aprendizado fica. Foi assim na eliminação para o Paulo Nunes, no Campeonato Brasileiro de 1996. Foi assim nos rebaixamentos para a série B - os que acompanhei em 1998, 2010 e 2015; foi assim no gol que o Harlei tomou sentado, e no pênalti cobrado por Felipe, que eu ouvi ecoar na trave, na final da Copa Sulamericana, em 2010; foi assim em cada derrota burocrática sofrida de propósito, por motivos de bastidores. Em cada jogador ídolo em um ano, e traidor da pátria no ano seguinte (André Dias, Rodrigo, Goulart, Walter, para ficar com os mais recentes). Mas a História mostra que a camisa é maior do que quem a veste. Que o clube continua, apesar das manchas.

A Nação Esmeraldina
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Aliás, no dia 12/12/1999, eu ouvi, pela primeira vez, a expressão "jogo de compadres". Felizmente, um compadrio que nos beneficiava, mas não beneficiava o espetáculo. Era a 6a e última rodada do quadrangular final do Campeonato Brasileiro - Série B, Goiás x Santa Cruz. O verde já contava com pontuação suficiente para subir campeão para a série A. Nenhum placar afetaria a classificação final. Se quisessem, os jogadores poderiam até marcar um churrasco para o mesmo dia, mesma hora, e assumir um luxuoso W.O. Fernandão já havia feito seu mítico gol de bicicleta rodadas antes (infelizmente, perdi), a festa já havia sido aproveitada de inúmeras maneiras. E aquele, um dos jogos mais burocráticos que o Goiás já fez. Edson Rodrigues já declarava no rádio: "É pra cumprir tabela". Mas eu estava lá, com meu pai, meu avô, meus irmãos. Assistimos um jogo horroroso, que ficou no 0x0 e deixou aquela sensação de perda de tempo. Mas também rolou uma das coisas mais bonitas que eu já vi, em toda a minha história com o Goiás Esporte Clube (inclusive considerando a virada histórica em cima do Palmeiras em 2010, no Pacaembu lotado - e calado - pela Sulamericana). Assim que o apito final ecoou, os foguetes estouraram e as palmas começaram, olhei para o lado e vi meu avô chorando, sacudindo uma bandeira verde.

Os números são importantes, claro! A estatística, os contratos, a gestão. Mas o Goiás Esporte Clube foi fundado há 74 anos por 33 torcedores que, antes de mais nada, deram início a um sentimento. E esse sentimento que veio impregnado no idealismo de Tão Segurado, na garra de Lincoln e de cada jogador que honrou a camisa verde e branco dentro de campo, permanece até hoje no coração dos mais de 1 milhão de torcedores esmeraldinos.

Talvez o clube não seja para sempre (apenas) o maior do centro-oeste. Talvez entre em declínio, talvez seja campeão continental. Os números mudam constantemente, não dá para confiar. Mas o que importa é que o Goiás Esporte Clube será, para sempre, meu avô chorando, hasteando orgulhoso uma bandeira verde e branca, do alto do anonimato de uma arquibancada.”

Por João Paulo Lopes Tito - Advogado e estudante de Cinema e Audiovisual.

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